Fome: quase 70% dos moradores de aglomerados não têm dinheiro para comprar comida

 Fome: quase 70% dos moradores de aglomerados não têm dinheiro para comprar comida

Foto: Fred Magno

Eu preciso regrar o leite. Meu coração parte quando acordo de manhã e não tem um biscoito para meus filhos comerem”. O relato é da faxineira Rosa Cristina de Souza, 32, moradora do aglomerado Alto Vera Cruz, na região Leste de BH. Desde o início da pandemia do novo coronavírus, ela, o marido e os cinco filhos vivem com uma renda de cerca de R$ 500 por mês. Rosa é apenas uma dos milhares de pessoas que vivem em aglomerados do país e tiveram a vida afetada com a chegada da Covid. Uma pesquisa do Instituto Data Favela, em parceria com a Locomotiva – Pesquisa e Estratégia – e a Central Única das Favelas (Cufa), aponta que 68% da população de favelas já passou pela situação de não ter dinheiro para comprar comida. A pesquisa foi realizada entre 9 e 11 de fevereiro deste ano em 76 favelas do país – 2.087 pessoas maiores de 16 anos foram ouvidas. Para doar, acesse o site da Cufa em cufaminas.org.

“Antes da pandemia, a gente conseguia colocar as coisas dentro de casa. Meu marido ganhava um salário e meio, e eu fazia mais ‘bicos’. Já tem um ano que ele não consegue emprego fixo, e estamos correndo atrás, faço chup-chup, olho idosos e várias outras coisas”, conta Rosa. “As pessoas dos aglomerados já tinham trabalho informal, não se encaixavam no mercado de trabalho. Então, quando entrou a pandemia, teve um impacto social nesse território muito mais drástico. Temos situações até constrangedoras: mães de família nos ligam falando que têm só um tomate na geladeira, não tem nada para cozinhar para os filhos”, relata o presidente da Cufa Minas Gerais, Francis Santos.

Ainda conforme o levantamento, 71% das famílias vivem com menos da metade do que ganhavam antes da pandemia. “A gente tem percebido também que as pessoas precisam escolher qual refeição fazer ao longo do dia porque não têm o que comer no dia seguinte”, diz ele.

Para a família de Rosa, o fim da pandemia é a esperança de um futuro melhor. “ Essa doença é invisível e afeta todo mundo. Eu quero não ter que me preocupar se amanhã vou ter ou não comida para os meus filhos”.

Foto: Fred Magno

Desemprego em cadeia no país

Sibele Freire Joseph, 30, é mãe solteira de duas crianças, uma de 5 e outra de 7 anos, e mora em um barraco no aglomerado da Serra. Empregada doméstica, ela ficou cinco meses sem trabalhar por causa da atual crise econômica agravada pela pandemia do coronavírus. Ela foi demitida em meados no ano passado porque a dona da casa onde trabalhava teve que cortar gastos porque também ficou desempregada. </CW>
Mesmo voltando ao mercado de trabalho há dois meses, ela ainda se depara com contas a pagar que se acumularam durante o período em que ficou sem trabalho.

Sibele viveu com doações de ONGs e as cestas básicas que a Prefeitura de Belo Horizonte distribui para a população de baixa renda que tem filhos matriculados na rede municipal. “Minha ex-patroa conseguiu um novo emprego e me chamou de volta. Dei graças à Deus. É muito difícil ficar sem trabalhar. Sou sozinha com dois filhos, tenho que dar comida, comprar roupa, pagar as contas. Tudo encareceu muito com a pandemia. Mesmo voltando a receber um salário, o dinheiro não dá para quase nada. As cestas que a prefeitura dá ajudam, mas não resolvem. São pequenas e dão só para 15 dias. No resto do mês, a gente recorre a ajuda de ONGs, família, porque senão fica ainda mais difícil. As coisas estão muito caras. A gente come o que tem”, lamentou.

Momento crítico

Com a pandemia, a Cufa cresceu o número de doações de cestas básicas, além de distribuir máscaras e álcool em gel. “No ano passado, foram distribuídas 450 toneladas de alimento em favelas e periferias do Estado. Em novembro e dezembro, as doações diminuíram. A cidade foi voltando a uma certa rotina, e as pessoas acreditaram que a pandemia tinha passado, mas estamos no estado mais crítico”, afirma o presidente da Cufa Minas Gerais, Francis Santos.

Fonte: O Tempo

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