Saiba como cinemas, teatros e casas de show planejam reabrir em BH

 Saiba como cinemas, teatros e casas de show planejam reabrir em BH

Salas cheias, aplausos de pé, apertos de mão e, em alguns casos, visitas ao camarim. Infelizmente, esse modelo tão comum em teatros, casas de show e cinemas teve de ser suspenso por causa da pandemia do novo coronavírus. Mas o setor nunca ficou parado. Na verdade, alguns profissionais falam que nunca trabalharam tanto. Os primeiros meses da crise foram marcados pela febre das lives, shows ao vivo transmitidos nas redes sociais. Astros como Milton Nascimento, Gilberto Gil e Alok fizeram apresentações gratuitas para milhares de pessoas. Só que isso não quer dizer que o futuro de tais eventos será para sempre dentro das pequenas telas de celulares e computadores, presos em casas. Cinemas, casas de show e teatros estão encontrando formas de abrirem suas portas com segurança.

Indo na contramão da pegada de videoconferências, lives e plataformas digitais, a rede de cinemas mineira Cineart buscou um modelo do passado para voltar com as suas atividades. Criados no começo do século XX, os cinemas drive-in se tornaram uma tendência nos Estados Unidos no período após a II Guerra Mundial. Com uma tela gigantesca e filas de veículos se arrastando por metros, essa estrutura icônica acabou se tornando um dos principais símbolos da década de 1950, junto com a brilhantina e os carros com rabo de peixe. Apesar de a ideia nunca ter sido tão forte no Brasil, o Cineart viu no cinema drive-in uma forma perfeita e segura de voltar a exibir filmes. E a iniciativa deu tão certo que rolou até uma festa junina, com direito a comidas típicas e show ao vivo. “É uma outra experiência. Tem o conforto do carro e a diversão de fazer um programa diferente”, diz Thais Henriques, diretora do Cineart. “Acho que as pessoas estão loucas por alguma distração, um respiro com segurança.”

A empresa montou duas salas de exibição a céu aberto em BH, sendo uma no estacionamento do Mix Garden e outra no Alphaville. Toda a estrutura foi pensada para garantir que cada pessoa possa curtir o seu filme sem se preocupar com o vírus. Os ingressos (R$ 60 por carro às quartas-feiras e R$ 80 de quinta a domingo) são vendidos pela internet e apresentados por QR code na entrada de cada sessão. Quem comprar um combo com pipoca e bebidas será redirecionado para uma passada rápida no drive-thru da bomboniére. Depois, é só ir para a sua vaga, sintonizar o rádio do seu carro na frequência do filme e aproveitar. “Fizemos questão que a qualidade de imagem e som fossem a mesma oferecida em nossas salas”, conta Thais. Em Paris, a rede de cinemas MK2 criou um jeito criativo para garantir que as pessoas respeitem o distanciamento social dentro das salas. Réplicas de pelúcia dos adoráveis Minions, da série de filmes Meu Malvado Favorito, foram espalhados pelas poltronas, para reforçar a necessidade do distanciamento social. Onde eles estavam, ninguém podia sentar. Já nos Estados Unidos, onde as salas não podem ter uma lotação maior do que um quarto da capacidade máxima, a rede AMC aposta em aumentar o número de sessões nos outros dias da semana, em vez de manter o foco entre sexta e sábado. “Acredito que o cinema sai da quarentena fortalecido. Está todo mundo com saudades, ninguém quer continuar em casa”, diz Thais Henriques, do Cineart.

Para os fãs da música clássica, a pandemia não poderia ter escolhido uma data pior: 2020 é o ano que marca o 250º aniversário do compositor Ludwig van Beethoven. “O maestro Fábio Mechetti já tinha preparado uma programação lindíssima com várias obras do compositor”, conta Diomar Silveira, presidente do Instituto Cultural Filarmônica. “Estava tudo programado, desde setembro do ano passado”. Mas isso não quer dizer que o aniversário do gênio alemão passará despercebido. Ao redor do mundo, várias orquestras criaram soluções criativas para voltarem com os concertos. Acostumada a ver seus mais de 1.700 assentos tomados, a Orquestra Filarmônica de Viena limitou a capacidade da sua sala de concertos a apenas 100 pessoas, além de diminuir o tempo máximo de cada concerto para 70 minutos, sem intervalos.

Enquanto isso, aqui em Belo Horizonte, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais pensa nos seus próprios planos para a reabertura. “Nossa sala tem 1.493 lugares, mas teremos que trabalhar com um público bem reduzido”, diz Diomar. E a preocupação em evitar aglomerações foi parar em cima do palco. O maestro Fábio Mechetti, diretor artístico e regente titular da filarmônica, terá de reprogramar o repertório deste ano, focando em execuções com grupos menores. A ideia é ter mais apresentações, com um revezamento entre os músicos. Mas a pandemia também trouxe mudanças profundas na estrutura da filarmônica. “O digital, que era apenas uma das nossas atividades, acabou se tornando o foco do nosso programa”, diz Diomar. A orquestra levou seu conteúdo para as redes sociais, seguindo à risca a agenda semanal. Terça-feira é dia de acompanhar os músicos no home office com os “Solos em casa”. Nas quintas, Fábio Mechetti indica uma obra que transformou o mundo da música. E para fechar a semana, às sextas, a Filarmônica publica um concerto completo no canal do Youtube. Para o segundo semestre, a orquestra também pretende lançar uma série de vídeos chamada “Universo Sinfônico”, em que cada músico compartilha a história e as características dos seus instrumentos. “Estamos a mil por hora. Tenho trabalhado mais agora do que antes da pandemia”, afirma Diomar. O presidente, porém, não vê a hora de reabrir as portas da Sala Minas Gerais. “A experiência sensorial que você tem ao ver um concerto ao vivo é única. Isso, nenhum vídeo é capaz de imitar.”

Já o setor de teatros sentiu com força os impactos da crise do coronavírus ao redor do mundo. Em Nova York, a Broadway só tem expectativa de abrir as suas quarenta casas de espetáculos depois de setembro. No Reino Unido, segundo o presidente da UK Theatre, associação que concentra profissionais do ramo, cerca de 70% dos teatros da região fecharão as portas. Musicais famosos, como Cats e Os Miseráveis, só devem voltar a serem exibidos em Londres no ano que vem. Já no norte da Austrália, região que não teve nenhum caso de transmissão comunitária do novo coronavírus, um teatro local conseguiu abrir suas portas. O novo normal dentro do Browns Mart Theatre é assim: máscaras, ingressos eletrônicos, capacidade reduzida e respeito total às regras de distanciamento social – até mesmo entre os atores.

O período de incertezas, no entanto, não assusta o pessoal do Sesc Palladium. “Uma coisa que não podemos ter é medo do novo”, diz a gerente Priscilla D’Agostini. “Nesta pandemia, fomos desafiados a pensar em novas ações, considerando o cenário de constante mudança.” Os palcos estão fechados, mas o espaço está cada vez mais próximo do seu público. Toda quarta-feira, a partir das 19h, as fachadas dos prédios vizinhos são iluminadas pelo Palladium Projeta. Durante uma hora, a esquina da avenida Augusto de Lima com Rio de Janeiro é tomada por mensagens carinhosas, poemas, artes visuais e até karaokê. “Um dos desafios do período foi ajudar na realizar a versão online do Fartura”, lembra Priscilla. Durante o evento, o Palladium ficou responsável pela organização do projeto “Um negócio para chamar de seu”, um bate-papo entre empresários de vários setores da economia criativa, focado em trazer soluções inovadoras para os problemas de cada um. Outra atividade do espaço que precisou passar por uma reformulação foi o #temtodosábado. As reuniões com atividades para pais e filhos fazerem juntos migrou do hall da Augusto de Lima para o perfil de Instagram do Sesc Palladium. “Esse é um momento que exige flexibilidade e adaptação”, diz Priscilla. “Mesmo após a reabertura, todas as nossas atividades terão um equilíbrio muito forte entre o digital e presencial.”

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