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Aracitaba: a dor por trás dos números na cidade com maior taxa de óbitos em Minas

 Aracitaba: a dor por trás dos números na cidade com maior taxa de óbitos em Minas

Antonio Figueiredo, de Aracitaba, na Zona da Mata Mineira, morreu de COVID-19. Este foi um dos últimos registros dele, ao lado da esposa Isabel Melquiades, e família. (foto: ARQUIVO PESSOAL)

Saudade, sofrimento, perda, recordações. Em cada família enlutada de Aracitaba, na Zona da Mata mineira, as palavras saem do coração e ecoam pela terra que, em língua indígena, significa “morada da lua”. Com cerca de 2 mil habitantes, o município fica a 100 quilôme- tros de Juiz de Fora e a 39 de Santos Dumont. E é para esses duas cidades que são levados os pacientes que precisam de cuidados intensivos. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde, no município, sete pessoas morreram (todas idosas) em decorrência da COVID-19, uma vítima a mais do que os dados computados pela Secretaria Municipal de Saúde. O total parece modesto, mas em um cálculo que projeta esses dados para um grupo de 100 mil habitantes, a cidade aparece com a maior taxa em todo o estado de Minas Gerais: 367. Significa que, considerada a proporção de mortos em relação à população, se tivesse 100 mil moradores, Aracitaba teria perdido 367 vidas para o coronavírus. Mas é no depoimento dos familiares que as histórias ganham vida sobre a frieza dos números.

A morte do meu pai deixou
minha família sem chão”

Luciana Aparecida Elias Martins, filha mais velha de Vicente Elias, que morreu em 17 de novembro, aos 72 anos
“O ano passado foi muito difícil, triste, marcante mesmo para nossa família. Minha mãe morreu em junho, e cinco meses depois, em 17 de novembro, meu pai, Vicente Elias, foi embora vítima da COVID-19. Faltavam apenas 11 dias para ele fazer 73 anos.

Vicente Elias morreu apenas 11 dias antes de completar 73 anos, cinco meses depois de perder a mulher
(foto: ACERVO PESSOAL)
Só posso dizer que eu, meus três irmãos e demais familiares ficamos sem chão. O coração da gente ficou muito machucado, a saudade é grande. Ele trabalhou na prefeitura, estava aposentado, era ministro da eucaristia e tinha muita fé em nosso padroeiro, Senhor do Bonfim. Pena que o fim não foi um bom fim…
Com a morte da minha mãe, Maria Geralda, meu pai ficou ‘apaixonado’ de tristeza. Tenho muitas lembranças dele. Como cultivava sua horta aqui do lado de casa, sempre de manhã eu lhe servia um café. Todo mundo chorou no enterro, até o padre João, nosso pároco, chorou naquele dia.
O pior dessa doença é que a despedida fica mais dolorosa ainda. É tudo rápido, o caixão fechado, a gente nem pode chegar perto.”

“Ficam para nós os frutos e as
sementes deixados por meu pai”

Renália de Fátima Gonçalves Vieira, cabeleireira, filha de Geraldo Gonçalves Vieira, que morreu aos 79 anos
“Se existisse uma vacina contra a COVID-19 há mais tempo, e protocolos rígidos a serem seguidos desde o início da pandemia, tenho certeza de que meu pai, Geraldo Gonçalves Vieira, estaria hoje aqui, entre nós. Era um homem que gostava da vida, tinha muita disposição, adorava dançar. Infelizmente, não chegou a ser imunizado contra o coronavírus.
Meu pai sempre teve muito medo dessa doença. Cuidava da saúde, ia ao médico, mas era avesso a hospital, consultórios, esses ambientes. Morreu em 8 de dezembro. Mais um pouco completaria 80 anos, no dia 27 daquele mês.
Geraldo, que partiu aos 79 anos, em foto com a mulher, Maria de Lourdes: lembranças de 60 anos de união e exemplo para a família
(foto: ACERVO PESSOAL)

 

Para nós – seus cinco filhos, netos e minha mãe, Maria de Lourdes –, tudo é muito sofrido, a saudade é grande, ele faz falta demais. Procuramos nos apegar às boas lembranças, às histórias, aos 60 anos de união dos meus pais, ao exemplo de vida.
Triste foi vê-lo passar 33 dias internado no hospital. Quando minha madrinha morreu, também vítima de COVID-19, eu, que moro em Juiz de Fora, fui a Aracitaba para o enterro. Naquele dia, achei meu pai um pouco abatido, mas não imaginei que ele já estivesse com a doença. Dias depois, testou positivo. Espero que, com a vacinação, muitas vidas sejam poupadas.
Sempre trabalhando em fazenda, ele tinha paixão pelo quintal da sua casa, em Aracitaba, onde plantava e colhia café. Ficam, então, para todos nós, os frutos e as sementes de amor, trabalho e dignidade.”

Esse vírus é uma praga, mas
vamos ter força para vencer”

Isabel Melquíades, dona de casa, viúva de Antônio Figueiredo, que morreu aos 79 anos

Antônio Figueiredo, que faleceu em dezembro, com a mulher, Isabel: ‘Ele começou a passar mal e ficou quatro dias internado’
(foto: ACERVO PESSOAL)

 

“A COVID-19 é um fardo muito pesado, forte, triste. O pior de tudo é saber que a pandemia  não acabou, que ainda vamos passar um período longo nesse sofrimento.
Perdi meu marido, Antônio Figueiredo, em 13 de dezembro. Tudo ainda está muito recente, é doloroso até de lembrar. Ele começou a passar mal, foi levado para um hospital em Santos Dumont (a 39 quilômetros de Aracitaba) e ficou quatro dias internado. Felizmente, não foi muito tempo lá…
A maior parte da vida, Antônio trabalhou na roça. Eu estava sempre junto, ajudando. Às vezes, à noite, acordo pensando no Antônio. A saudade é grande. Sou evangélica, tenho dois filhos, quatro netos, e atualmente moro sozinha aqui em Aracitaba. Meu filho também teve COVID-19, mas está bem, tem um filho pequeno.
Só tenho a agradecer a Deus e a Jesus por tudo na vida. Esse vírus é uma praga, não tenho dúvida, mas vamos ter força para vencer.”
Amazildes Soares da Silva tinha 82 anos e não resistiu após 17 dias de internação
(foto: ACERVO PESSOAL)

“Ninguém está imune. Temos que
nos proteger da melhor forma”

Maria Erlene da Silva Barbosa, filha de Amazildes Soares da Silva, que morreu aos 82 anos

“Perder a mãe é um dos maiores sofrimentos para o ser humano, ainda mais quando é vítima da COVID-19, uma doença que assusta a humanidade, chega sem avisar, causa falta de ar e deixa enorme dor no coração da gente.
Minha mãe, Amazildes Soares da Silva, tinha 82 anos. Foi internada em 18 de outubro e morreu em 4 de novembro, em um hospital de Santos Dumont, na Zona da Mata. Passou por todo aquele calvário hospitalar, incluindo intubação. Desde 2009, apresentava alguns problemas respiratórios, mas estava em tratamento e vinha respondendo positivamente. O vírus foi fatal para a saúde dela.
Para nossa família – seis irmãos, 11 netos e dois bisnetos – foi ainda mais difícil. Nosso coração ficou dilacerado, pois, 10 dias antes da morte da minha mãe, perdemos nosso pai, Valter Bonifácio da Silva, então com 95 anos. O caso não foi COVID-19. Mas ficou a saudade em dose dupla!
Estamos sentindo muita falta dos dois. Meu pai já era de idade, e minha mãe era uma pessoa alegre, que gostava de cozinhar, cuidar da casa, dinâmica mesmo. Acredita que peguei COVID porque comi um restinho de banana com canela do prato dela, com o mesmo garfo? Ainda não sabíamos do vírus. Felizmente, não tive nada grave.
Ninguém está imune a essa doença. Temos que nos cuidar e proteger da melhor forma.”

 

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