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Clientes pressionam clínicas a fazer lista de espera para vacina anti-Covid

 Clientes pressionam clínicas a fazer lista de espera para vacina anti-Covid

Se quem depende da rede pública de saúde não tem outra alternativa de vacinação contra Covid senão aguardar a definição do governo federal, a possibilidade da imunização ser realizada na rede privada abriu um duplo leque de oportunidades. Por um lado, quem puder pagar entre 300 e 400 reais pela dose da vacina – valor ainda especulado – pode ter esse atalho. Há também uma excitação no segmento empresarial composto por clínicas de vacinação, já que empresários do setor afirmam presenciar um aumento de novas clínicas querendo um pedaço dessa fatia do mercado.

Assim que foi divulgado que as clínicas particulares negociam a compra de 5 milhões de uma vacina indiana, os telefones desses estabelecimentos tocam com mais frequência. A procura pelas redes sociais tem sido igualmente intensa. Empresas querem comprar a vacina para imunizar suas equipes. Pessoas físicas pedem para deixar o nome em supostas listas de espera.

Os donos de clínicas consultados pela reportagem de O TEMPO afirmam compreender o pedido para se criar fila de espera, mas se recusam, por enquanto, a usar essa estratégia. E nem podem, na verdade, a se confirmar a orientação divulgada pelo Ministério da Saúde, de que as clínicas terão que seguir o calendário de vacinação do SUS. Isso quer dizer que os primeiros a levar as agulhadas anti-Covid, mesmo na rede particular, seriam também os idosos e demais integrantes dos grupos de risco.

Se confirmada a compra da vacina Covaxin, imunizante fabricado pela farmacêutica indiana Bharat Biotech, e caso a Anvisa aprove sua aplicação no Brasil, o lote de 5 milhões será dividido entre os associados da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (ABCVac). Cada clínica já firmou acordo de intenção de compra da vacina, e também citou o quantitativo do imunizante a ser adquirido. Os dados, no entanto, são sigilosos.

Na capital, a Prevacin, que tem Cláudia Magalhães como sócia, é uma dessas clínicas associadas. Ela trabalha com a previsão dada pela ABCVac, de que o imunizante seja aprovado pela Anvisa até março. “Os telefones aqui não param um segundo”, diz.

Com 21 anos de experiência no ramo, o médico Antônio de Pádua é dono da Clínica Crescer, situada em Juiz de Fora, na Zona da Mata. Ele confia na eficiência da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e espera que as clínicas privadas realmente sejam autorizadas a vacinar, apesar das incertezas do momento. O empresário aponta as dificuldades logísticas de guarda e armazenamento do imunizante. “Há vacinas com frascos de 10 doses, por exemplo, e há prazo curto de validade. Alguns duram somente duas horas depois de aberto”, explica. Calcular qual o tamanho da demanda é um dos riscos que essas clínicas precisam enfrentar. “O grande concorrente das clínicas particulares será o próprio SUS, e os custos de uma clínica são absurdamente grandes”, completa.

Diretora geral da Maximune, Manuela Duarte avalia como justa a decisão de priorizar o calendário do Plano Nacional de Imunização (PNI), que promove a vacinação gratuita. “Penso que a vacina tem que chegar (primeiro) às pessoas que não têm condição, idosos que estão morrendo. Vamos estar aqui para absorver o que o governo não vai conseguir. Creio que nós somos um braço do PNI”, afirma. Na clínica por ela comandada, também chegam pedidos de lista de espera. “Não tenho como dar preferência. E vamos aguardar o Ministério da Saúde se posicionar sobre o calendário de vacinação”, esclarece.

“Tem gente achando que vai ficar milionária”

Enquanto a demanda por vacinas cresce, os olhos do mercado também se voltam ao setor. Empresários do ramo com anos de atuação se queixam da entrada de novos concorrentes no segmento. “Vemos muitas clínicas começando a abrir agora para surfar na onda da Covid. É gente que está achando que vai ficar milionária”, disse um executivo que pediu anonimato. “Existe uma curva ascendente de clínicas abrindo”, informou outro representante do setor.

Frisando que não há previsão exata para a venda de vacina anti-Covid na rede particular, Gustavo Henrique, gestor à frente da clínica Saúde Livre, no Vila da Serra, prefere ratificar a necessidade atual de usar máscaras para evitar o contágio. “Não prometemos vacina, pois só podemos vender o que temos. E nada foi autorizado por enquanto”, diz. A empresa é uma franquia de clínicas de vacina com 54 unidades espalhadas pelo Brasil. O endereço em Nova Lima abriu há 1 mês.

A pressão junto às clínicas é grande para reservar a vacina, mas alguns empresários torcem para que a rede privada tenha realmente que seguir o calendário do SUS. Desta forma eles estariam resguardados e evitariam ter que administrar vaidades de clientes que pedem para furar a fila da vacinação. Todas as clínicas consultadas pela reportagem defenderam a tese de que a vacinação na rede privada é um complemento junto ao SUS e não irá amplificar a desigualdade na aplicação da vacina. “Temos que pensar no coletivo e ter calma. Isso vai passar”, reflete Gustavo.

Outra aposta de algumas clínicas é que a negociação para compra de vacinas se amplie para demais fabricantes. “Também temos expectativas de trabalhar com vacinas da Pfizer e da Astrazeneca”, prevê Antônio de Pádua.

Lustosa confirmou intenção de compra

O Laboratório Lustosa explicou que está em contato com fornecedores de vacina contra Covid, mas ainda não há previsão de concretizar as negociações.

A Dasa, que administra vários laboratórios no Brasil, incluindo a rede São Marcos, informou, por meio de nota, que “possui amplo relacionamento com diferentes fornecedores de imunizantes globais e, até o momento, a comercialização não está disponível para empresas privadas”. O Hermes Pardini disse que não negocia diretamente com nenhum fornecedor. Ambas empresas são associadas da ABCVac.

Fonte: O Tempo

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