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Covid-19 avança pelo interior de Minas e lota os hospitais

 Covid-19 avança pelo interior de Minas e lota os hospitais

Em Ipatinga, na região do Vale do Aço, a taxa de ocupação das UTIs chega a 98%

O avanço de casos de Covid-19 vivenciado na capital também se espalha pelo interior de Minas Gerais. Nas últimas semanas, o cenário de piora foi confirmado no recuo da flexibilização de várias regiões do programa Minas Consciente, com seis macrorregiões na Onda Vermelha, e também na taxa de ocupação de UTIs, atualmente em 67,3%. A pressão mais impiedosa, no entanto, acontece porta adentro dos hospitais. Algumas cidades já apresentam taxas altas de ocupação de leitos e se articulam para tomar medidas que evitem o colapso da rede de saúde. A emissão de decretos municipais que restrinjam ou reorganizem o horário de funcionamento do comércio está entre as medidas possíveis.

A região Leste do Estado é uma das que causam maior preocupação. Dados do monitoramento estadual demonstram que por lá a ocupação de UTIs encontra-se em 87,21% – é o maior índice entre as 14 macrorregiões, e todas elas exibem ocupação maior que 45%. Situada na região, a cidade de Governador Valadares chegou perto do esgotamento, já que a ocupação de leitos estava em 98% no fim de semana, após três leitos do Hospital Municipal terem sido interditados devido a infiltração. Os leitos foram retomados, e a taxa passou para 86,2%. Na rede privada, o problema é maior, com ocupação de UTIs em 100%.

A prefeitura reclama que grande parte dos atendimentos é de de pacientes oriundos de outros municípios – o mesmo argumento é utilizado por diversos municípios. Um ofício foi encaminhado ao governo estadual solicitando transferência de pacientes. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) confirma o recebimento do documento e disse que está em fase de avaliação. Ontem foi realizada a transferência de uma paciente de Resplendor, que foi encaminhada para Divnópolis, já que a situação em Valadares está perto da lotação. O encaminhamento foi feito com o uso de aeronave do governo estadual.

Ainda sobre a complexa situação na região Leste, a SES informou que estão sendo encaminhadas cardioversores e monitores multiparâmetros para ampliar a capacidade de atendimento. A pasta ressaltou a necessidade de que as prefeituras tomem medidas que limitem a circulação de pessoas nos municípios, especialmente cidades que estejam na Onda Vermelha no programa Minas Consciente, caso de Governador Valadares.

Para Eduardo Luiz, presidente do Conselho Estadual de Secretarias Municipais de Saúde (Cosems), o cenário é temerário e demanda atuação efetiva das prefeituras. “Isso nos preocupa. Então, precisamos reorganizar a forma de enfrentamento para que possamos proteger nossa população”, avalia.

Autoridades podem restringir circulação de pessoas e horário do comércio

A possibilidade que vem sendo aventada pelos secretários de Saúde, segundo ele, é emitir decretos que restrinjam o funcionamento do comércio, o que ajudaria a diminuir o fluxo de pessoas transitando pelas cidades e contribuindo para a transmissão do vírus. “Não é lockdown nem paralisação das atividades, mas temos que diminuir a circulação das pessoas”, opina. “A economia brasileira não suporta o fechamento total, mas escalonar horários é importante para limitar o número de pessoas nas ruas. A população precisa entender a situação”, completa.

No Vale do Aço o cenário também causa preocupação. A região apresenta 85,78% de ocupação nas UTIs. Em Ipatinga, município da região, a taxa é ainda maior e chega a 98%. Montes Claros é outra cidade que acaba atraindo pacientes dos pequenas e pobres municípios do entorno e de ouros nem tão próximos. Por lá, os hospitais estão com 56% de ocupação dos leitos de UTI Covid. “Nos preocupa o aumento de incidência vivenciado no Norte de Minas”, diz a secretária de Saúde do município, Dulce Pimenta. “Temos pacientes até da Bahia”, relata. Na mesma região, a cidade de Salinas já apresenta esgotamento da rede de saúde, com ocupação total de sua capacidade.

Em São João del-Rei, no Campo das Vertentes, o prefeito Nivaldo Andrade divulgou um vídeo nas redes sociais informando que vai proibir o funcionamento de bares e restaurantes a partir desta terça-feira (15). Ele estuda ainda tomar outras medidas para conter o avanço do vírus. “A Covid aumentou muito, e temos que nos prevenir”, alertou.

Situada na Zona da Mata, Juiz de Fora presencia aumento de casos há várias semanas. No município, quatro dos 13 hospitais que atendem pelo SUS estão sem leitos disponíveis. Ontem a prefeitura contabilizou 20 novas mortes, registradas desde a última sexta-feira (11). “Houve crescimento da curva de contágio no Estado inteiro. Acredito que, principalmente com o pleito eleitoral, a população relaxou um pouco nos cuidados e na proteção contra a Covid”, avalia o presidente do Cosems.

Setor público e privado vivenciam o caos, diz médica de Teófilo Otoni

Com 85% de utilização dos leitos de UTI Covid, a situação em Teófilo Otoni não é diferente. Para esses casos mais graves, há mais pacientes de fora da cidade do que os moradores locais. O contexto que beira a falta de leitos é descrito abaixo por uma médica que trabalha em um hospital do município. Ela pediu para não ser identificada.

“Estamos vivenciando um momento em que faltam profissionais em todos os hospitais, seja médico, seja enfermeiro ou técnico. Alguns atingiram o ápice da exaustão, pois estiveram dando o sangue desde o início dessa luta. Então, decidiram abandonar. Em outros casos, novos serviços de saúde enfrentam a dificuldade para proceder com abertura, pois não existem mais profissionais para ocupar os cargos. Tanto o setor público quanto o privado vivenciam o caos. Voltou a crescer o número de novos casos notificados, e, além dos pronto-atendimentos lotados, vivenciamos CTIs sem vaga. Algumas famílias possuem recursos para encaminhá-los para locais que ainda conseguem receber, por exemplo Belo Horizonte, mas infelizmente são a exceção”, relata a médica.

Ela conta que quase perdeu um colega médico de 32 anos na semana passada. O profissional não tinha comorbidades. “Foi o momento mais tenso que vivi até o momento. A cada dia a doença chega mais perto”, diz. “Agora com as festas de final de ano, a expectativa é de piora do quadro, mas continuamos insistindo na conscientização da população”, finaliza.

Fonte: O Tempo

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