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Pediatras pedem retorno das aulas em BH; infectologista alerta sobre o risco

 Pediatras pedem retorno das aulas em BH; infectologista alerta sobre o risco

Pediatras se uniram em um movimento para pedir o retorno das aulas presenciais em Belo Horizonte e outras cidades mineiras. Os especialistas que integram o grupo alegam que as crianças não são os grandes vetores do vírus e, além disso, estão sofrendo retardo com o isolamento. Os danos sociais, físicos e mentais com o afastamento do ambiente escolar pelo longo período foi classificado como “irreparável”.

Apesar de reconhecer os prejuízos no desenvolvimento infantil, infectologistas alertam que o momento não é adequado para a volta às aulas nas escolas. O regresso dos alunos, conforme a prefeitura de BH, colocaria pelo menos 250 mil pessoas em riscos, dentre elas professores, motoristas, pais e avós dos estudantes.

Desde março, as aulas presenciais estão suspensas no Estado e, por enquanto, ainda não há previsão de retorno. Em Belo Horizonte,  a Secretaria Municipal de Educação (Smed) informou que está adaptando as escolas para receber os alunos com segurança. Contudo, conforme a pasta, o atual cenário da pandemia não permite a retomada.

Dano

Pediatra e voluntária científica do protocolo de reabertura do Estado, Carolina Capuruço observa que, no início da pandemia, os médicos não tinham informações sobre o novo coronavírus. Por isso, o fechamento das escolas foi necessário. Contudo, segundo a especialista, hoje já se sabe que as crianças, sobretudo aquelas abaixo de 10 anos, têm baixa carga viral e menor transmissibilidade do vírus. Na prática, isso significa que elas não são os grandes vetores da pandemia.

“Com o passar dos meses, estudos nacionais, internacionais e revisões apontaram que as crianças estão tendo pouco acometimento e evoluem em raríssimos casos para o agravamento e mortalidade”, detalhou. Além disso, Carolina pontua que a crianças também não são as principais disseminadoras intradomiciliar da Covid-19. “Raramente, são os primeiros casos da doença”, enfatizou.

Na avaliação da pediatra, apesar de não fazerem parte do grupo de risco e de não serem potenciais transmissoras, as crianças estão sendo penalizadas. “As crianças com melhor condição econômica e social têm ficado trancadas no apartamento, com uso excessivo de tela e expostas a estresse tóxico. Em contrapartida, as mais vulneráveis estão em ambientes insalubres, muitas vezes sem o cuidado de um adulto e em condições sanitárias inferiores às propostas pelas escolas”, exemplificou. De acordo a médica, quanto menor a idade, maiores os agravos do isolamento.

Por isso, vários médicos fizeram um manifesto pedido o retorno das aulas presenciais. Mais um ano longe das escolas, segundo o grupo, seria desastroso. “Somos apartidários e não queremos uma abertura inconsciente. Queremos uma abertura segura, feita com protocolos e, sobretudo, que as autoridades priorizem a educação. Que os recursos sejam destinados para as escolas e o 2021 não tenha tantos danos”, declarou.

Carolina Capuruço e os demais médicos que assinam o manifesto reconhecem a gravidade da Covid no Estado. Porém, ressaltam que é possível fazer uma reabertura facultativa, hídrida e respeitando aqueles que não querem levar os filhos para as escolas, sejam elas públicas ou privadas. “Não queremos obrigar todo mundo”, disse. “A sociedade que prioriza a criança e adolescente é a sociedade que prioriza o seu futuro”, defendeu.

Perigo

Infectologista e membro do Comitê de Combate à Covid-19 em BH, Unaí Tumpinambás argumentou que, no atual cenário da pandemia, o retorno das aulas presenciais traria mais malefícios do que benefícios. “A gente sabe que a criança adoece menos, transmite menos, mas há pessoas envolvidas neste retorno. É um risco aumentado e seria preocupante, pois o vírus voltaria a circular com mais intensidade”.

Ainda conforme o especialista, que é professor da UFMG, a reabertura das instituições de ensino só seria possível quando as condições epidemiológicas indicarem. “Escola é essencial e entendemos o prejuízo para as crianças. Mas este momento é muito complexo”, declarou.

A PBH endossou o coro e informou que o retorno das aulas presenciais colocaria em perigo 22 mil professores, 180 mil responsáveis por levar e buscar os alunos pequenos, 9.400 colaboradores terceirizados, 2.600 prestadores de serviços e fornecedores, além de mais de 10 mil alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). “Portanto, também é preciso lidar com a comunidade escolar como um todo, e perceber que todos os dias as aulas na rede municipal movimentam quase 250 mil adultos e muitos deles com comorbidades e idade avançada”, pontuou

Já o governo de Minas disse que investiu 14 milhões em itens protocolares para retorno e 50 milhões da operação da volta as aulas “que já está em plena execução e todos os investimentos necessários ao cumprimento dos protocolos de segurança foram feitos, mas movimentação de 250 mil adultos na cidade diariamente ainda não é recomendável até que a taxa de transmissão do vírus baixe dos mais de 80 casos por 100 mil habitantes atuais para pelo menos 20”.

A Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) esclareceu, por nota, que a decisão sobre a abertura de qualquer escola, seja pública ou privada, é de responsabilidade e autonomia de cada prefeitura. “O Estado autorizou a retomada das atividades presenciais nas instituições de ensino, a partir de outubro, nos municípios que estão localizados na onda verde, conforme as deliberações do Plano Minas Consciente, ficando a cargo dos municípios a sua liberação”.

Com relação à rede pública, o processo para a retomada está suspenso, por determinação judicial. “A SEE/MG segue oferecendo aos alunos da rede o Regime de Estudo não Presencial para a continuidade do processo de ensino e aprendizagem”, explicou.

Confira abaixo a íntegra do manifesto dos médicos:

CARTA DOS MÉDICOS MINEIROS PELA REABERTURA DAS ESCOLAS
Nós, MÉDICOS MINEIROS  pediatras, psiquiatras, neurologistas e de diversas especialidades, vimos manifestar nosso embasamento técnico e científico a respeito da volta às aulas de forma segura, facultativa e híbrida. Respeitando aqueles que não podem ou não querem retornar nesse momento, bem como aqueles que podem, querem e precisam retornar às aulas. 

Art. 205 da Constituição Federal: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.” 

As escolas SÃO SERVIÇOS ESSENCIAIS E DEVEM SER TRATADAS COMO TAL. As crianças e adolescentes são o futuro de uma população e foram CRUELMENTE ESQUECIDAS PELOS GOVERNANTES E PELA SOCIEDADE. São o público que mais tem sofrido as consequências do isolamento prolongado e os que menos têm participação na transmissibilidade da doença ou quadros clínicos graves. 

Nos primeiros meses da pandemia, quando não conhecíamos o vírus presumimos que as crianças poderiam ser os grandes transmissores da doença, assim como em tantas outras viroses. Neste primeiro momento, foi importante o afastamento das crianças até que conhecêssemos melhor a fisiopatologia viral. Entretanto, estudos mundiais, metanálises, revisões, publicados em mais de 150 países desenvolvidos e em desenvolvimento já registraram uma evolução benigna da doença na faixa etária pediátrica, além de baixa carga viral e transmissibilidade naqueles menores de 10 anos. Apesar do que havíamos suposto no início da pandemia, as crianças NÃO SÃO OS GRANDES VETORES (“super spreads”) da COVID-19.

De acordo com Boletim Epidemiológico da Prefeitura de Belo Horizonte, publicado em 30/11/2020, nenhuma criança menor de 10 anos faleceu em consequência da Covid-19 no município e apenas um adolescente evoluiu para o óbito. Em contrapartida os danos mentais, sociais e físicos SÃO INEGÁVEIS E IRREPARÁVEIS de acordo com toda a sociedade civil e CIENTÍFICA MUNDIAL. 

A Sociedade Brasileira de Pediatria, UNESCO, ONU, OMS, FIOCRUZ, CDC, ECDC destacam todos esses prejuízos devido ao prolongamento do período de fechamento das escolas. Destacando a disparidade e maiores consequências negativas nas populações mais vulneráveis do ponto de vista social e econômico.
As crianças e adolescentes são privados do seu potencial de crescimento e desenvolvimento no tempo adequado “das janelas de oportunidades da infância”.  Além de impactar profundamente o aprendizado, há maior risco de evasão escolar e suas consequências, aumento da desnutrição, exposição a riscos e distúrbios mentais.

A escola e o convívio dentro da comunidade escolar (mesmo com distanciamento) é fundamental para desenvolvimento da socialização, disciplina, frustrações, desenvolvimento da tolerância, autoconfiança e independência das crianças. IMAGINAR QUE AS CRIANÇAS NÃO SOFREM DE ANSIEDADE E DEPRESSÃO É DESCONHECER A NATUREZA HUMANA DAS CRIANÇAS.
Os efeitos negativos da perda de dias letivos se aplicam a todas as faixas etárias pediátricas, com impacto nas habilidades cognitivas dos alunos e evasão significativamente maior, com óbvias repercussões ao longo da vida. 

Quando privamos as crianças de irem às aulas, tiramos grande parte da sua base social e geramos um quadro de estresse mental, aumentando o nível de cortisol em seu organismo. Quanto mais tempo a criança ficar exposta à essa alta quantidade de cortisol, piores serão as consequências como: hipervigilância (paranóia), hiperatividade, impulsividade, dificuldade de controlar a fúria, dificuldades intelectuais, baixa autoestima e até aumento da criminalidade na idade adulta. O fechamento de escolas pode ter efeitos devastadores de longo prazo na vida dos alunos, especialmente daqueles já desfavorecidos.

São as escolas que acolhem, protegem, desenvolvem e mantém saudáveis os nossos bens mais valiosos, as nossas crianças. Estudos em diversos países do mundo já mostraram que a abertura das escolas não foi relacionada ao aumento ou redução de casos, desde que haja protocolos adequados.

Várias escolas da rede privada já preencheram critérios sanitários suficientes para a abertura. Sabemos da maior dificuldade das escolas da rede pública, mas várias já encontram condições adequadas e devemos exigir que as autoridades forneçam recursos suficientes para aquelas que ainda não conseguiram se adequar O FAÇAM COM URGÊNCIA. Negar a abertura de escolas – particulares e públicas (estaduais e municipais) que já estão preparadas porque o Poder Público não está destinando recursos para possibilitar a abertura de todas as escolas não resolve o problema, apenas aumenta o abismo e normaliza uma conduta errada Poder Público que não pode ser mais tolerada

Além disso, a maioria esmagadora das crianças é infectada por um adulto que convive no mesmo ambiente. Vários estudos já comprovaram que a dinâmica da transmissão familiar se dá em mais de 80% por adultos e não por crianças. Adultos já estão saindo diariamente para o trabalho, muitos usando transporte coletivo e, por vezes, sem condições mínimas de sanitarismo. 

Mais um fator importante é a redução da participação das mulheres no mercado de trabalho. Segundo IPEA, é a menor dos últimos trinta anos. Sem escolas, um dos responsáveis acaba deixando o trabalho para cuidar das crianças, na sua maioria são as mulheres. 

A PRIORIDADE DA SOCIEDADE DEVE SER NOSSAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES E A ABERTURA DAS ESCOLAS COM PROTOCOLOS. 

A SOCIEDADE QUE CUIDA DAS SUAS CRIANÇAS É AQUELA QUE CUIDA DO SEU FUTURO!

PRECISAMOS AINDA QUE O PODER PÚBLICO, EM TODAS AS CIDADES MINEIRAS, SE COMPROMETA À, CASO HAJA NECESSIDADE DE FECHAR A CIDADE NOVAMENTE, MANTER AS ESCOLAS ABERTAS COMO SERVIÇO PRIORITÁRIO.

Fonte: O Tempo

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