Tá procurando o quê?
Onde?

`Levo elas no cinema, em igreja, batizado’, diz mulher das cobras de BH

 `Levo elas no cinema, em igreja, batizado’, diz mulher das cobras de BH

As três jiboias que vivem no apartamento de Mônica da Cunha são apenas parte da história. Com 59, quase 60 anos, a mãe das cobras de Belo Horizonte, personagem que se tornou símbolo do Centro da capital mineira, vive com o irmão mais velho, de 70 anos, o filho psiquiatra, e a nora. A casa é cheia, mas o apartamento na avenida Bias Fortes, no bairro Lourdes, ainda poderia estar abarrotado de animais. De todos os tipos e espécies – gaviões, urubus, porcos, vacas, galinhas e todos os “bichos livres” de dona Mônica fariam parte daquele universo. Corujas, não. Há alguns anos, Mônica tentou alimentar uma ave da espécie, mas se assustou quando ela voou em sua direção e, até hoje, mantém-se o medo.

O lamento é por não viver afastada do Centro, por ora. As caras e bocas que surgem na paisagem da cidade enquanto ela passeia com Tiopatinhas ou Coronavírus, nomes dados às jiboias mais velha, de nove anos, e mais nova, de um, respectivamente, muito pouco incomodam Mônica. “Tem ladrão para todo lado. Então fico com as cobras mesmo, bom que ninguém fala comigo, me chamam de doida, mas ladrão atravessa a rua ao me ver…”, conta, em letras maiúsculas, pelo celular.

No início desta semana, um vídeo em que ela aparece com um dos animais no cruzamento entre Tupis e Rio de Janeiro viralizou. Comentários que flutuam entre o espanto, a maravilha e o desprezo se amontaram nas redes sociais. “BH tem cada figura!”, “alguém chama a Luísa Mell”, “essa senhora é muito gente boa!”, “este país não é para amadores”, “misericórdia!” – pontuaram as diversas vozes em reação às caminhadas de Mônica.

O encontro com o repórter e o fotógrafo de O TEMPO, marcado para o início da tarde do dia seguinte, ainda não havia ocorrido, mas a conversa voou solta. A animação dela com a visita que ainda faria ao criadouro Jiboia Brasil, em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte, era visível e, sem dúvida, cativante. “Você vai adorar, Tiago vai colocar uma jiboia de 200 Kg para você carregar!”, exclamou Mônica.

O homem, Tiago Lima, é biólogo e responsável pelo criadouro, onde ela comprou todas as cobras. A relação entre os dois, devido aos bichos, é frequente – ela entra em contato, preocupada com a saúde das serpentes, pede dicas, e, ele, acompanha e ajuda sempre que pode. “Os bichos são a vida dela. Tudo dela é em prol de cuidar desses bichos, e a gente tenta, na medida que pode, orientar, dar um suporte”, conta Lima.

O biólogo não soube precisar quando eles se conheceram – algo entre quatro ou cinco anos. “Muita gente critica nas redes sociais, mas não sabem a importância desses bichos para ela”, comenta, quando questionado sobre a convivência entre os dois. Mônica tem o corpo magro, geralmente estampado com roupas coloridas. O laranja florescente esteve presente nas primeiras duas vezes que a reportagem teve contato com ela – em dezembro de 2019, quando estava fronte a uma loja no Centro mostrando uma de suas cobras, e no vídeo viral.

– Em meio ao murmúrio de pessoas, carros e comércio no Centro de Belo Horizonte, uma voz se sobrepõe – “é uma cobra de verdade?”, pergunta uma pedestre a uma mulher que, ancorada nas paredes de uma loja, segura uma jiboia na rua. Desafiada, ela estende a serpente, que se mexe e revela os quase dois metros de extensão. “Eu tenho quatro em casa”, diz a moça.

Acumulando pavor e maravilha, a situação ocorre, segundo a dona do bicho, diariamente nas vias da capital. “Todo dia eu saio pra passear com uma, hoje foi essa”, diz. Uma idosa, que acompanhou de longe a cena, relatou que a mulher cobrava R$ 2 para que os transeuntes apalpassem o animal. Contudo, nada fora cobrado dos pedestres durante o tempo que a reportagem acompanhou a cena. A dona dos animais nega que já tenha pedido dinheiro. –
(Nota publicada em O TEMPO no dia 20 de dezembro de 2019)

Na quinta-feira à tarde, quando o carro da reportagem parou na porta de sua casa, as cores estavam desviadas para a bermuda que Mônica vestia, enquanto, na parte de cima, uma camisa branca tomava conta da figura. Aos 18 anos, a mulher sofreu um problema cardíaco e um derrame que, apesar de não terem tido fatais, causaram alguns problemas motores e na fala dela. Nada que tire seu charme, mas os passos de Mônica são cuidadosos, espaçados e, a voz, um pouco arrastada. Limitações, contudo, que não tiram sua energia.

Ainda na viagem entre o apartamento no Lourdes e o criadouro, em Betim, o entusiasmo era pleno. Para proteger uma das cobras, que passariam por um checkup no local, do sol, Mônica abriu o zíper da mochila onde estava o bicho, que surgiu para fora em torrente. “Assim não vai dar para dirigir!”, “calma, ele tem medo” – o barulho dos freios do veículo apita. O motorista quase morreu do coração. A mulher retornou a cobra para a embalagem, e o carro seguiu, com o chofer ora ou outra vigiando o bicho.

“Essa daqui é a Coronavírus, adquiri ela no tempo da pandemia, na época do coronavírus, por isso o nome”, conta ela, mostrando a cobra filhote, com pouco menos de um metro, que quase causou um acidente na avenida Amazonas, já em Contagem. Belohorizontina, Mônica desenvolveu o gosto por serpentes cedo – aos 20 anos, ganhou uma jiboia “enorme” de um amigo. Na época, ela trabalhava como escrivã em um cartório, junto ao pai, e criava o animal na casa dele.

Contudo, os bichos ficaram mais presentes em sua vida há nove anos, quando comprou a primeira cobra e levou para o apartamento. “Levo para passear, vamos em shopping, levo elas no cinema, em igreja, batizado. Elas põem roupinha, cílios, iam em barzinho na sexta-feira. Veio a pandemia e quieto tudo, né?”, conta.

Casou-se aos 16, mas se separou menos de dois anos depois. Teve um filho aos 30, deixou “o cargo no Estado”, como ela descreve o trabalho que fazia, gosta de cinema, boteco e comida chinesa – uma vida cheia de acontecimentos, poucos páreos à sua paixão. “Você gosta mais de cobra do que de gente?”, perguntou o repórter. “Gosto, uai, mais das cobras que de gente. Gente é invejosa, gente matou até o filho de Deus, quando estava na terra. Bicho nos dão carinho, amor, do jeito deles”, respondeu.

Ela não esconde algumas marcas no corpo causadas por mordidas, mas nada que tenha sido muito grave. Os animais são calmos. Nunca atacaram ninguém nas ruas, nem a machucaram de verdade. “Minha conversa com animal é melhor que ser humano. Não dá certo comigo”, defende. Questionada se permite que as pessoas peguem nos bichos, Mônica responde que o privilégio é para poucos – “uma ou duas (pessoas) eu deixo pegar, mas não todo mundo”.

As jiboias não são colocadas em qualquer lugar para passear, também. Em locais “muito sujos”, elas não tocam – os matagais do Centro, por exemplo, estão vetados. Em uma ou outra praça, como a que aparece no vídeo que viralizou, ela permite que os bichos se divirtam no gramado por algum tempo. Logo após, quando chega em casa, as cobras vão direto para o banho – que, sempre, é preparado com rosas.

“Depois, passo hidratante, para elas poderem dormir, ou verem televisão. É igual ser humano, sabe? Trabalha, pega poeira da rua, e se banha”, afirma. Apesar de a fama ter chegado em cheio, a internet não foi maldosa com dona Mônica, segundo ela. Houve apenas dois comentários negativos em suas redes, os quais prontamente ignorou. “Todo mundo gostou. (Às duas que não gostaram), nem dei resposta, cada pessoa tem um modo de pensar, né? Quem sou eu para ir contra”, conclui.

Mônica garante que mantém as cobras saudáveis e legalizadas – coisa que prova apresentado à reportagem toda a papelada necessária para criar os bichos em casa. Um calhamaço de papel com quase cinquenta páginas, referentes aos três animais, que comprou no criadouro. Dentro deles, laudos médicos, autorizações do órgão ambiental, notas fiscais, registro de cada um dos bichos. Os preços do variam entre R$ 2.200 até quase R$ 10 mil, dependendo de qual tipo de cobra ou criadouro for adquirido.

“Muita gente não sabe, mas você pode ter em casa cobras, lagartos, papagaios, araras, desde que nasçam em um criatório licenciado pelo órgão ambiental. Se ele for regular, é só achar o animal que mais se adequa à sua realidade. Mas as cobras são bons animais de estimação, criadas com essa finalidade, não são retiradas da natureza e são acostumadas com o cuidado humano”, explica o biólogo Tiago Lima. A demanda por animais exóticos – em especiais os répteis – conta ele, tem aumentado. “São bichos que precisam de pouco cuidado”, justifica.

A conversa com o especialista ocorreu em uma das várias salas repletas de cobras que existem no local. Os ofídios são dispostos, separados, na maior parte dos casos, em caixas especiais, ou em vivedouros. São mais de 600 cobras no espaço, mas nenhuma é peçonhenta. Também, convivem peixes em um aquário na sala de entrada, três jacarés em um lago presos por um portão de vidro, e algumas aves. Dentre elas, uma coruja branca.

As maiores víboras chegam a pesar quase 40 quilos, e a quase quatro metros de comprimento. Uma delas, prenha, é agressiva – não foi criada em cativeiro, mas resgatada e entregue ao criadouro. Os hábitos da jiboia, explica Lima, são “retos”. Caso o bicho entenda, em algum momento da vida, que o ser humano é uma ameaça, se torna agressivo. Se tiver boa impressão da nossa espécie desde que nasceu, é calmo. Elas não produzem veneno.

O fotógrafo pede para que uma das cobras mais tranquilas seja sua modelo – e Mônica quase treme em entusiasmo. O animal, que tinha cerca de dois metros, é retirado por Nicolas, um dos estagiários em biologia que trabalha no local, que o maneja em paz. A cobra se desdobra, livre do cativeiro, levantando a cabeça, curiosa, em direção à câmera. “Não morde, né?”, pergunta. “Não, fica tranquilo”, responde. Então, a mulher pega o bicho nas mãos, e deixa a serpente festejar em seu corpo. Enrolada quase como um colar, fazendo círculos no pescoço dela, o animal só gera entusiasmo para Mônica.

Depois da sessão de fotos, todos saem do ambiente interno do criadouro e se dirigem ao quintal. A mulher segura Coronavírus nas mãos, distribuindo beijos e carinhos na pele do réptil. “Não publica isso!”, diz, quando cometeu uma confissão ao jornalista – que será mantida. “Segura ela, segura ela”, diz Mônica, empurrando a cobra para o corpo do repórter, que em um misto de pânico e maravilha deixa o bicho andar por seu dorso. Entre risadas e cliques na câmera, a situação terminou bem, com o animal recuperado às mãos da dona.

A reportagem tentou levar Mônica ao local onde, no vídeo viral, deixou a cobra caminhar, mas ela disse estar cansada. No carro, a caminho da casa da mãe das cobras de Belo Horizonte, ao menos cinco ligações de uma grande emissora de televisão à procura dela ocorreram. Nenhuma foi atendida, e ela mostrava a tela ao repórter toda vez, com certa indignação nos gestos.

“A Tiopatinhas, ih, é velha, cheia de manias. Gosta de comer no escuro, outra hora gosta de receber a comida só na boca, essas coisas de gente velha”, conta sobre o animal que a transformou em um fenômeno da internet mineira. As três jiboias que vivem no apartamento de Mônica da Cunha são apenas parte da história que, entre maravilha e pavor, passeia pelas ruas da capital mineira. “Então, dona Mônica, como é que você é conhecida?”, questiona o repórter. “Sou a das cobras”, conclui.

Fonte: O Tempo

https://www.otempo.com.br/cidades/levo-elas-no-cinema-em-igreja-batizado-diz-mulher-das-cobras-de-bh-1.2386788

Publicações relacionadas